Lina Bo Bardi e a Construção da Igreja do Povo

por Victória Neris Silva
Publicado: 11/06/2026 - 07:47
Última modificação: 11/06/2026 - 07:53
Lina Bo Bardi e a Construção da Igreja do Povo

Em julho de 1976, a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) foi convidada a projetar uma pequena igreja franciscana no interior de Minas Gerais, na periferia de uma cidade que crescia com a transferência da capital federal para o Planalto Central. Esta pesquisa se debruça sobre o processo de projeto e construção da Igreja Divino Espírito Santo do Cerrado, em Uberlândia (1976-1982), único patrimônio cultural protegido pelo Estado na cidade, inscrito em 1997 na lista de bens tombados do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA-MG). De partido arquitetônico simples e programa enxuto – capela, residência para três freiras, salão paroquial para reuniões e festas e um (extinto) campinho de futebol – a Igreja de Lina Bo Bardi no Jaraguá não possui rebocos nem acabamentos especiais. Seu valor, contudo, está na ruptura filosófica e projetual que suscita. Nas palavras da autora:  “o que houve de mais importante na construção da Igreja do Espírito Santo foi a possibilidade de um trabalho conjunto entre arquiteto e mão de obra” (BARDI, 1982).  O que pode parecer banal revela não apenas o rompimento com a tradição moderna de separar projeto de obra – algo inseparável pela própria definição do fazer arquitetônico (FERRO, RECAMÁN) –, mas coloca em evidência um processo de trabalho realizado com o envolvimento da comunidade local. De certa maneira, a Igreja de Uberlândia sintetiza os vínculos da arquiteta com a cultura popular, e sua crença na admirável habilidade do povo brasileiro “em trabalhar e inventar com coisas em suas mãos” (BARDI). Considerando que durante as reuniões e vindas de Lina Bo Bardi à cidade, o projeto era modificado junto aos técnicos, mão de obra e comunidade, cabe à pesquisa entender como e em que grau isso aconteceu.